sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Paixão II


às vezes a paixão é uma dor
como se um vento muito forte
tivesse quebrado as janelas da alma
atravessasse o espaço até ao coração
e com um único sopro apagasse
a tatuagem que diz o teu nome


domingo, 31 de janeiro de 2016

Outros mares - Luís Serra


nocturno

no fim a geologia
e um silêncio repentino

a semântica uma senhora
tão fora de horas

(Luís Serra, in Aeroplano de Asas Partidas, 2016)





quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Paixão


Ateados os corpos no rastilho do beijo
Enlace de línguas, braços, pernas, pele
Mãos

Depois da explosão, o grito
Como quem morre



quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Saudade



existe o fim

e depois existe de repente a noite 
a engolir como um rio o corpo inteiro
e acredita-se que o mundo se apagou

e depois existe uma forma lenta de morte 
sobre uma cama de penas desfeitas
que também pode ser de nuvens negras

e depois existe um princípio de chuva 
e  imagina-se a tristeza do deserto 
e  inventa-se que as gotas serão beijos

e depois

e depois há palavras que dormem na pele 
e que às vezes acordam e nos abraçam 


lentas e macias como gatos

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Hoje lembrei-me de ti




Um dia,
dentro daquele inverno,
morreste.

A chuva derramava fúrias,
o vento gritava injúrias.
A terra encolhia-se,
assustada, lívida.
O tempo alongava-se,
quase a tornar-se infinito.

E então fugiste.
Como se não aguentasses
a palidez do mundo,
o desânimo do céu.
Como se te impacientasses
com a lentidão do tempo.
Morreste.

E naquele dia,
dentro daquele inverno,
eu estava longe
e não me despedi.
Queria ter-te dito ao ouvido
Palavras com cheiro a sol.


(in memoriam)

sábado, 1 de agosto de 2015

Insónia



A escuridão é muito pesada. Tanto. Quando me é difícil adormecer, imagino sempre que sou uma toupeira a escavar a terra dura e negra através de um túnel imenso. Quando finalmente amanhece, percebo que o túnel chegou ao fim e espero encontrar alguma leveza. Mas a luz também é pesada. Tanto. 



sexta-feira, 19 de junho de 2015

metamorfose


em que momento
me passei a equilibrar num arame invisível
vergada pelo peso de palavras ásperas
os olhos pendurados
(precariamente)
nas nuvens?

depois

escutei a voz dos pássaros
tornei-me azul
completamente azul
tornei-me transparente de tanto ser azul

desapareci até ao limite do átomo

quando nascerem as nuvens de outono
e a chuva te acordar
nas primeiras madrugadas de poesia

serão minhas as pegadas
que ouvirás leves
sobre o chão das vidraças que te velam o sono


um dia
voltarei a ser árvore



sexta-feira, 24 de abril de 2015

sexta-feira, 17 de abril de 2015

HAIKAI: 40 POEMAS À TERRA E À ÁGUA



"HAIKAI: 40 POEMAS À TERRA E À ÁGUA é uma recolha de poemas criados segundo o modelo temático-formal do haikai por alunos de 12º ano da Escola de Cunha Rivara - Arraiolos. Trata-se de um projeto de escrita criativa conduzido nas aulas de Português com a professora Paula Sande. As grandes fontes de inspiração literária foram os poetas da natureza e das sensações Alberto Caeiro e Manoel de Barros e o mestre japonês do haiku Matsuo Bashô. Mas a verdadeira inspiração veio diretamente da paisagem do alentejo.

Teresa Sande criou ilustrações para uma terceira edição de artista. A capa faz referência ao tema TERRA e a contra-capa ao elemento ÁGUA."

(in HAIKAI: 40 POEMAS À TERRA E À ÁGUA, página oficial do livro no facebook)











quarta-feira, 15 de abril de 2015

Outros mares - Herberto Helder




“Já me disseram que a gente que nasce e vive ao pé do mar é mais pura. Penso que o mar dá uma qualidade especial à fantasia, ao desejo e à confiança. É uma propriedade misteriosa do espírito, e por ela se aprende a nada esperar, a não desesperar de nada. Talvez seja isso a inocência. Talvez só no mar nos seja concedido morrer verdadeiramente, morrer como nenhum homem pode.”



(Herberto Helder, in “Os Passos em Volta”)